agosto 22, 2017

O Mito na Umbanda sob o prisma Platônico

TCC – Curso de Sacerdote

Formandos – 2017

FUCESP – Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo

 

Silnei Aparecido Farkas

 

O Mito na Umbanda sob o prisma Platônico. O mito da caverna.

 

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (João Paulo II)

 

Guarulhos, 17/01/2015

 

 

Agradecimentos

 

Á Zambi e aos Sagrados Orixás.

Agradeço a Zambi Criador de tudo, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Por Ele fui concebido em Alma e Espírito e gerado matéria com as faculdades necessárias para louvar em terra as suas Potências Divinas, os sagrados Orixás. A Eles, elevo minha cabeça ao chão, contemplo meus ancestrais e justifico meu múnus sacerdotal.

 

À FUCESP.

Agradeço a FUCESP pelo ambiente acolhedor е amigável, pela oportunidade de cursar o alto nível do conhecimento da Umbanda Sagrada. Pelo convívio com o mestre e amigo pai Salun, pelo apoio e convívio com o amigo sempre atencioso pai Jô, pela orientação, apoio е confiança na minha capacidade de aprendizado e conhecimento, e pela oportunidade de exercer a missão sacerdotal na legalidade exigida pelos poderes civis.

Agradeço aos irmãos de fé que me proporcionaram a troca de conhecimentos, experiências e afetividade à nossa religião, pois, fizeram parte da minha formação е vão continuar presentes em minha vida…com certeza!

 

Aos filhos, esposa e amigos.

Agradeço o incentivo, o apoio incondicional e a compreensão pelas ausências, fatores preponderantes para a realização do curso de formação sacerdotal na FUCESP.

 

INTRODUÇÃO

De acordo com a tradição filosófica, é considerado conhecimento, uma crença que seja verdadeira e adequadamente justificada. Dessa perspectiva, dizer que acredita em algo sem alegar que isso constitua conhecimento não é contraditório; é apenas incomum, já que normalmente se supõe que as pessoas com determinada crença afirmem que ela seja necessariamente verdadeira.

As pessoas têm suas próprias noções e conceitos do que é certo e errado, todavia sem ligar isso a Deus. Uma citação de Abraham Lincoln ilustra bem essa linha de pensamento: “Quando eu faço o bem, eu me sinto bem, quando eu faço o mal, me sinto mal, e essa é minha religião”

A Umbanda praticada no novo mundo, sincrética em todas as suas dimensões, perdeu muito das suas raízes filosóficas, logo, do seu conhecimento ou como é conhecido na linguagem cativa, o fundamento.

Como nos ensina o Ponto cantado a Pai Ogum na gira da Umbanda Sagrada: “…Umbanda tem fundamento é preciso preparar…”, A prática da Umbanda justifica-se pelo seu conhecimento, logo, não há fiel prática umbandista a partir de conceitos subjetivos.

Nesta perspectiva, utilizo-me do mito da caverna, uma alegoria do filósofo grego Platão descrita em seu livro “A República”, para trazer a luz do saber o único e verdadeiro mito originalmente umbandista.

 

O Mito

O mito é um relato personificado dos aspectos gerais da condição humana para justificar uma verdade. (Silnei Farkas)

 

O Mito da Caverna

 

Este mito é considerado uma das mais importantes alegorias da história da Filosofia. Através desta metáfora é possível conhecer uma importante teoria platônica: como, através do conhecimento, é possível captar a existência do mundo sensível (conhecido através dos sentidos) e do mundo inteligível (conhecido somente através da razão).

O mito fala sobre prisioneiros (desde o nascimento) que vivem presos em correntes numa caverna e que passam todo tempo olhando para a parede do fundo que é iluminada pela luz gerada por uma fogueira. Nesta parede são projetadas sombras de estátuas representando pessoas, animais, plantas e objetos, mostrando cenas e situações do dia-a-dia. Os prisioneiros ficam dando nomes às imagens (sombras), analisando e julgando as situações.

Vamos imaginar que um dos prisioneiros fosse forçado a sair das correntes para poder explorar o interior da caverna e o mundo externo. Entraria em contato com a realidade e perceberia que passou a vida toda analisando e julgando apenas imagens projetadas por estátuas. Ao sair da caverna e entrar em contato com o mundo real ficaria encantado com os seres de verdade, com a natureza, com os animais e etc. Voltaria para a caverna para passar todo conhecimento adquirido fora da caverna para seus colegas ainda presos. Porém, seria ridicularizado ao contar tudo o que viu e sentiu, pois seus colegas só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede iluminada da caverna. Os prisioneiros vão o chamar de louco, ameaçando-o de morte caso não pare de falar daquelas ideias consideradas absurdas.

 

O Mito da Caverna na perspectiva crítica suscitada pela mítica oculta na Umbanda.

 

A Umbanda Sagrada é contemplada e praticada a partir de seus fundamentos, estes, ensinados através da tradição oral dentro dos terreiros tradicionais numa atmosférica legitimamente e essencialmente espiritual.

Correntes contemporâneas insistem na afirmação que num mundo de informação globalizada não há espaço para o mistério sagrado, logo, o mister depositário fiel dos fundamentos umbandistas estaria sendo desvelado ora na

mídia eletrônica aberta e “irresponsável”, ora através de pseudocursos com o propósito de “ensinar receitas” para todos os males.

Sob o prisma do mito platônico, este trabalho desvenda em poucas linhas o sincretismo mítico que antes de contextualizar a Umbanda no mundo atual, deturpa sua essência, raiz e gênesis.

O umbandista atual não aceita mais ser montado, elegun, ou, aquele que é montado na concepção africana trazida para o novo mundo. O guia espiritual parece ser independente do “cavalo”. Há uma crítica velada no coletivo, mas praticada individualmente em analogia a figura cristã da ovelha em obediência ao seu pastor. Há de se questionar quem está alienado, o cavalo, a ovelha ou o prisioneiro mítico?

A figura do prisioneiro está presa a dogmas. Os mitos tornam-se dogmas e o crer vincula-se única e exclusivamente ao sensível em detrimento da razão. O dogma é coletivo, o fundamento de Umbanda é subjetivo.

Em aproximadamente 8000 anos de prática, a Umbanda nunca propagou um mito se quer. A Umbanda está contida na devoção aos sagrados Orixás dentro da religião tradicional africana como na religião cristã e nas infinitas tradições religiosas.

Acorrenta-se aquele que se envaidece da fé manipulada.

Atualmente, a luz que projeta a “verdade absoluta” dos inúmeros mitos dos Orixás manipulados de acordo com os interesses dos manipuladores tem sua fonte na fogueira das vaidades.

Há um fenômeno contemporâneo que justifica o aumento em grande escala do número de manipuladores: o ganho financeiro. Fenômeno porque as cavernas deixaram de ser físicas. Não aumenta o número de terreiros de Umbanda geograficamente em proporção semelhante as “cavernas virtuais” ou cursos de fundamentos de Umbanda. Ocorre, com grande tristeza, o prejuízo incalculável da falta de convivência hierárquica nos terreiros. O médium de umbanda não mais quer iniciar-se como cambono. Não aprende mais língua de caboclo, logo e tão somente, apresenta-se como pretendente a filho iniciante vislumbrando iniciação espiritual no Orixá. Nesta perspectiva, um mercado se abre aos anseios do pretendente com todo o tipo de oferta “absurda”.

Os objetos manipulados além de fixar a ideia restrita de felicidade conformista tem também a função de aguçar o consumismo do que originalmente era possível apenas subtrair de forma ritualística da mãe natureza.

Há um universo mitológico africano dedicado aos Orixás dividido em nações culturais. Cada mito regional interpreta o Orixá a luz das suas necessidades. O fundamento de Umbanda é subjetivo, sensível e racional. As propriedades de uma erva indicada a uma abô (banho) afasta-se do ewô (proibição) de uma erva por razões míticas.

O conhecimento umbandista é livre, natural, real e contrapõe muitas vezes ao sincretismo imposto.

Foi na pátria mãe que a Umbanda foi sincretizada com a religião tradicional dos Orixás. Foi no mundo novo que a Umbanda foi sincretizada com o cristianismo. Sincretizar é absorver outras culturas, logo, a Umbanda sempre foi raiz.

Não são poucas as roças de candomblé que tem práticas umbandistas. Existem muitas cavernas míticas no universo das religiões de matriz africana. Uma afirmação possível apenas a quem conhece o exterior destas cavernas.

Os primeiros cristãos após o evento da crucificação foram tachados de loucos, cassados e conduzidos a morte. Jesus de Nazaré conhecia o externo da caverna

e tentava desacorrentar os prisioneiros submetidos a alienação da religião e do estado e foi levado a morte de fato.

Qual seria a sentença de morte daquele que tem o desejo de passar o conhecimento adquirido fora da caverna aos seus amigos?

A Umbanda hoje parece não mais aceitar a sincretização dos mitos africanos, mas, apropriou-se como uma pseudofonte de seus fundamentos. Há uma atmosfera de ignorância quanto ao universo mister em que a Umbanda é praticada.

 

O Mito na Umbanda – Conclusão

 

O único mito na Umbanda é o fundamento.

O fundamento manifesta-se nas firmezas dos pontos de força.

O fundamento manifesta-se no processo de cura promovido pelo guia espiritual no fenômeno da incorporação.

O fundamento manifesta-se na intuição do mentor espiritual para a manipulação mística dos elementos.

O fundamento manifesta-se misteriosamente no silêncio do segredo.

O fundamento manifesta-se única e exclusivamente na UMBANDA.

 

 

FONTES DE PESQUISA:

 

* Carta encíclica FIDES ET RATIO – s.p. JOÃO PAULO II.

* A República – PLATÃO.

* Lincoln – OODWIN, DORIS KEARNS.